23 de novembro de 2008

"Anda, diz Boa Tarde à senhora." - quantas vezes não te terão chamado à atenção? Quantas vezes não falaste tu por falar, às gentes desconhecidas, para não parecer mal?
Passemos então a por legendas em cada gesto. De cada fez que falas "porque sim", de cada vez que omites com algum propósito, ou que te conténs com qualquer intenção. Vá catano, deixa-te de cortesias e sê só tu, sem acabamentos nem enfeites. Sê só tu em carne viva, crua, a sangrar se for preciso, para que tenhas a certeza de que ainda te resta qualquer coisa de autêntico.

Sentas-te no meu sofá. São onze da noite, eu vibro ao entrar naquela série televisiva. Acompanhas-me o êxtase, sempre por oposição. Descalças-te entretanto - ainda vais ficar por um bocado.
Triste ideia a de se criarem lugares distintos num só espaço de convívio - as fossas abissais de que te falei acentuam-se - hoje a noite só conseguiu fingir a tua vinda para perto de mim.


A propósito do tal "falar porque sim", saltamos duas voltas nos ponteiros de qualquer relógio, tu chegas atrasado a casa dele e não me tocas. Não me nada. Não percebi. Legenda-te, pedir-te-ia se pudesse.

16 de novembro de 2008

Café de Amigos

Insistis-te que seria sempre assim. Não se percebeu muito bem o quê, mas foi a noção de imobilidade inalterável a que ficou.
(São três da tarde e recebo uma mensagem dela. Sim, foste tu quem ma apresentou e agora quero despegá-la de ti e não consigo. - Te-lo-ás tu já feito?)
Que ia ser sempre este o tom. Que iamos ser sempre assim, com este metro e meio de uma fossa abissal sem fundo nem aviso no meio. "Que ia ser sempre só assim", ressoou-me.

Trocas-me as voltas e a única coisa que te troco são uns atacadores de sitio. Ato-tos para que tropeces -sim, queria que caísses e que a pancada te fizesse acordar. Ou pelo menos, que te obrigasse a assumir o tão acordado que estás e escondes, ou, na melhor das hipóteses, em que não crês.

Espero por ti enquanto o sono me finta, indago se desta vez invocarás farrapos em forma de desculpa ou justificação da tua "não-presença", ou se, por outro lado, virás de alma em punho, sem sombra de medo ou preconceito seja lá do que for.
Vieste sozinho. Ironia de Deus ou do destino, o sono que venci venceu-os a eles, e demos por nós outra vez despidos de toda a gente, à minha porta.
Não recuas, e não chego a perceber se para não parecer mal ou se porque de facto não querias voltar para casa.
A meio do café que não bebemos, toco-te nessa mão que a minha conhece há anos e volto a recolhe-la instantaneamente - é ridiculo o medo de que me tomes com pena e te feches do lado de lá do tal abismo.
Se me lesses agora dir-me-ias o "Não percebi. Explica-me." do costume. E eu arranjaria maneira de te fintar, como sempre. Tens de perceber que a concretização ou a expressão concreta ou a merda da frontalidade (chama-lhe o que quiseres) deitaria por terra tudo aquilo que apenas posso ter sem que tu saibas.
E se sabes, então não nos deixemos de rodeios - Fiquemos "sempre assim", para que não perca a "piada" que a autenticidade lhe dá.

Voltei para casa mas as gargalhadas continuaram a ecoar o resto da noite nas ruas onde passámos. Adormeci embalada nessa frequência, aquecida pelo calor da tua voz ainda a rir-se de mim, aquecida pelo resto de nós que não coube nas margens do café de amigos que encenei tão bem no palco em que se tornaram os nossos dias.

9 de novembro de 2008

Subordinação


Não me quero subordinar a ti. Não me quero subordinar à tua vontade de mim.
Apercebi-me há instantes que tinha perdido mais umas palavras que não expressei.. Julguei tê-las guardado mas foram-se com o mesmo fulgor com que as cuspi. Pintavam qualquer coisa sobre a forma que o teu corpo deixava no meu edredão quando saías, sobre a marca dos traços do teu rosto na minha almofada e do teu cheiro que se estendia por todas as partículas pelo resto da noite.
Apercebi-me também de que não só as palavras se perdem...
Perdi-me. Dentro ou fora de ti, o que interessa? Dou por mim numa viagem sem retorno, um rodopiar enjoativo numa esfera achatada pelos choques aqui e ali.
Perdi-me no meio das tuas fintas. Tropecei nas tuas rasteiras inocentes. Esbarrei contra as tuas cargas de ombro propositadas.

Julguei ver coisas a mais. Sentir coisas a mais. Mas nunca disse coisas a mais.
Percebi então que não via coisas a mais, apenas o que ali estava - se pensava ou não a mais já era outra coisa. De igual modo também não sentia coisas a mais - quem raio me imporia limites?

Não, ao contrário do que possas julgar, não me excedi. Nem por instantes.
Ter-te-ás excedido tu em todas as horas em que não precisámos de mais ninguém?

6 de novembro de 2008

Espanha




Sexta-Feira, 29 de Fevereiro de 2008

Não, não digas a ninguém. Ninguém tem de saber.
Deixaste o teu cheiro por todo o lado. Cada monte de esponja forrada que nos servia de conforto ou brincadeira cheira a ti.

(Tocaram agora mesmo à campainha. É dia seis de Novembro do mesmo ano, e corri à porta na ilusão de que pudesses ser tu do outro lado. A voz murmurava-me qualquer coisa sobra a "Dica da semana" e eu disse que não. A tudo. Não, não eras tu. E não, eu não abriria hoje a mais ninguém. Ontem fintámos a razão e comemos crepes pela manhã. Bons, maus, o que interessava? Interessava-me antes saber o que te trouxe. Que caminhos tomas-te até ao conchego do meu sofá...)
Até um bocadinho de mim ficou com o teu cheiro, confidencio.
Queria simular-te. Simular o teu toque e adormecer sobre ele. Mas não consigo. Já te vivi vezes de mais para te conseguir inventar agora.





Domingo, 23 de Março de 2008

Arrepiava-me. E depois, fazia-me sorrir, esse teu cheiro que já quase não sobra neste pedaço de ti.
(Estavas em Espanha por esta altura. Tinha-te quase obrigado a deixares-me qualquer peça de roupa com o teu cheiro antes da tal viagem - erro meu. Devia ter-te dado também qualquer pedacinho de mim, para que não me tivesses deixado do lado de cá.)
Pergunto-me o que restará para além dele - e nada mais me ocorre se não a memória do que nunca foi, ou a miragem do que nem sequer virá a ser.

5 de novembro de 2008

Há nove meses.


"obrigado aí oh .. eu devo ser preto né?!" - Refilavas tu, com o mesmo jeito de sempre. Refilavas tu, sem saber que se não te escrevia onde me lesses, claro está que devia fazê-lo noutro lado.
Ainda hoje, exactamente nove meses depois desse teu refilar espontâneo, te escrevo onde não dês conta. Não digo onde não me leias porque até nas paredes te escrevo. Tu só não lês as letras na ordem certa...

Lembro-me de esganar a caneta com toda a força:


Quarta-Feira, 20º de Fevereiro de 2008

Cada palavra minha, um bocadinho dela. Essa minha confidente de todas as horas com que receio ter mais em comum do que deveria...
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Não, não vou falar de amizades.
Mas vendo bem, é disso que se trata. De anos de eloquência , de anos autênticos de inocência e sinceridade.
Adorava quando nos perdíamos nas noites com eles, naquelas noites de Verão em que de tanto rir nos sentíamos completos - como se esses risos fossem o passaporte para qualquer lugar onde nos encontramos connosco - e uns com os outros, claro.
Adorava quando me adormecias, naquela ternura quase familiar, adorava poder sentir que éramos todos uns "puts" e que mesmo sendo eu a única sem o estatuto, adorava sentir-me como tal.
A heterogenia das almas nunca sobressaiu. Era sempre tudo tão familiarmente aconchegador...
Adorava sair de casa e sentir-me no melhor lugar do mundo quando vos encontrava. O céu guiava-nos e quer entre risos quer entre lágrimas, eu sabia que podia sempre deitar-me convosco e sentir-me uma privilegiada.
E sei que ainda posso - tanto que sinto.
Mas porque tinhas tu de crescer? Não podíamos ficar com aquela imagem de inocência que nem os dias de praia, as noites ao relento ou em tendas ou em abraços nos roubavam...?
Desculpa-me a intrusão no teu olhar, desculpa-me.
Queria ver-te como o mesmo irmão de sempre... Mas eu sei-lo: Se a ele sempre o vi como tal, em ti houve sempre qualquer toque que eu gostava de esmifrar.
Ainda me lembro de quando brincávamos e me adormecias na roulote tão só vossa. E eu, mesmo que por instantes pudesse sentir-me diferente, nunca, em momento algum, ousei olhar-te de maneira diferente. Nunca te senti aliás de maneira diferente.
Mas tu cresces-te. Eu mesma devo ter ganho mais qualquer coisa do que uns quantos quilos e a inocência às vezes tende a fugir-me.
Desculpa-me se te roubo agora o cheiro, que conheço há anos.
Desculpa-me se te olho agora como nunca ousei antes olhar.
Pára de crescer. Ou por outra, vamos ficar apenas na Rua Sésamo onde sempre pertencemos.
Vamos descer à noite e rir e agir como sempre. Quero perpetuar o espírito SATHAGAM. Quero perpetuar o que de autêntico nos resta.
Não, não me despertes o que de mim cresceu. Não me deixes ver-te como o menino que já não és.
Não me toques demais, não te aproximes demais.
Não me deixes roubar o que não é meu.


Te-la-ia agarrado agora da mesma maneira, e ter-te-ia escrito exactamente o mesmo.
Não julgues que tenho um não-sei-que de atitude em falta para contigo - tem antes em conta que tenho a mais até.


Guarda segredo,
um beijo.