Insistis-te que seria sempre assim. Não se percebeu muito bem o quê, mas foi a noção de imobilidade inalterável a que ficou.(São três da tarde e recebo uma mensagem dela. Sim, foste tu quem ma apresentou e agora quero despegá-la de ti e não consigo. - Te-lo-ás tu já feito?)
Que ia ser sempre este o tom. Que iamos ser sempre assim, com este metro e meio de uma fossa abissal sem fundo nem aviso no meio. "Que ia ser sempre só assim", ressoou-me.
Trocas-me as voltas e a única coisa que te troco são uns atacadores de sitio. Ato-tos para que tropeces -sim, queria que caísses e que a pancada te fizesse acordar. Ou pelo menos, que te obrigasse a assumir o tão acordado que estás e escondes, ou, na melhor das hipóteses, em que não crês.
Espero por ti enquanto o sono me finta, indago se desta vez invocarás farrapos em forma de desculpa ou justificação da tua "não-presença", ou se, por outro lado, virás de alma em punho, sem sombra de medo ou preconceito seja lá do que for.
Vieste sozinho. Ironia de Deus ou do destino, o sono que venci venceu-os a eles, e demos por nós outra vez despidos de toda a gente, à minha porta.
Não recuas, e não chego a perceber se para não parecer mal ou se porque de facto não querias voltar para casa.
A meio do café que não bebemos, toco-te nessa mão que a minha conhece há anos e volto a recolhe-la instantaneamente - é ridiculo o medo de que me tomes com pena e te feches do lado de lá do tal abismo.
Se me lesses agora dir-me-ias o "Não percebi. Explica-me." do costume. E eu arranjaria maneira de te fintar, como sempre. Tens de perceber que a concretização ou a expressão concreta ou a merda da frontalidade (chama-lhe o que quiseres) deitaria por terra tudo aquilo que apenas posso ter sem que tu saibas.
E se sabes, então não nos deixemos de rodeios - Fiquemos "sempre assim", para que não perca a "piada" que a autenticidade lhe dá.
Voltei para casa mas as gargalhadas continuaram a ecoar o resto da noite nas ruas onde passámos. Adormeci embalada nessa frequência, aquecida pelo calor da tua voz ainda a rir-se de mim, aquecida pelo resto de nós que não coube nas margens do café de amigos que encenei tão bem no palco em que se tornaram os nossos dias.

1 comentário:
Vim ver o teu sótão. A visita foi breve mas regressarei muitas vezes. Beijinho
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