
"obrigado aí oh .. eu devo ser preto né?!" - Refilavas tu, com o mesmo jeito de sempre. Refilavas tu, sem saber que se não te escrevia onde me lesses, claro está que devia fazê-lo noutro lado.
Ainda hoje, exactamente nove meses depois desse teu refilar espontâneo, te escrevo onde não dês conta. Não digo onde não me leias porque até nas paredes te escrevo. Tu só não lês as letras na ordem certa...
Lembro-me de esganar a caneta com toda a força:
Quarta-Feira, 20º de Fevereiro de 2008
Cada palavra minha, um bocadinho dela. Essa minha confidente de todas as horas com que receio ter mais em comum do que deveria...
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Não, não vou falar de amizades.
Mas vendo bem, é disso que se trata. De anos de eloquência , de anos autênticos de inocência e sinceridade.
Adorava quando nos perdíamos nas noites com eles, naquelas noites de Verão em que de tanto rir nos sentíamos completos - como se esses risos fossem o passaporte para qualquer lugar onde nos encontramos connosco - e uns com os outros, claro.
Adorava quando me adormecias, naquela ternura quase familiar, adorava poder sentir que éramos todos uns "puts" e que mesmo sendo eu a única sem o estatuto, adorava sentir-me como tal.
A heterogenia das almas nunca sobressaiu. Era sempre tudo tão familiarmente aconchegador...
Adorava sair de casa e sentir-me no melhor lugar do mundo quando vos encontrava. O céu guiava-nos e quer entre risos quer entre lágrimas, eu sabia que podia sempre deitar-me convosco e sentir-me uma privilegiada.
E sei que ainda posso - tanto que sinto.
Mas porque tinhas tu de crescer? Não podíamos ficar com aquela imagem de inocência que nem os dias de praia, as noites ao relento ou em tendas ou em abraços nos roubavam...?
Desculpa-me a intrusão no teu olhar, desculpa-me.
Queria ver-te como o mesmo irmão de sempre... Mas eu sei-lo: Se a ele sempre o vi como tal, em ti houve sempre qualquer toque que eu gostava de esmifrar.
Ainda me lembro de quando brincávamos e me adormecias na roulote tão só vossa. E eu, mesmo que por instantes pudesse sentir-me diferente, nunca, em momento algum, ousei olhar-te de maneira diferente. Nunca te senti aliás de maneira diferente.
Mas tu cresces-te. Eu mesma devo ter ganho mais qualquer coisa do que uns quantos quilos e a inocência às vezes tende a fugir-me.
Desculpa-me se te roubo agora o cheiro, que conheço há anos.
Desculpa-me se te olho agora como nunca ousei antes olhar.
Pára de crescer. Ou por outra, vamos ficar apenas na Rua Sésamo onde sempre pertencemos.
Vamos descer à noite e rir e agir como sempre. Quero perpetuar o espírito SATHAGAM. Quero perpetuar o que de autêntico nos resta.
Não, não me despertes o que de mim cresceu. Não me deixes ver-te como o menino que já não és.
Não me toques demais, não te aproximes demais.
Não me deixes roubar o que não é meu.
Te-la-ia agarrado agora da mesma maneira, e ter-te-ia escrito exactamente o mesmo.
Não julgues que tenho um não-sei-que de atitude em falta para contigo - tem antes em conta que tenho a mais até.
Guarda segredo,
um beijo.
um beijo.

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