28 de dezembro de 2008

A invensão de um grupinho de sinapses


Repugnam-me os rótulos.
Repugnam-me os prasos.
Repugna-me ainda mais poder ter-te dado um, como se fosses quantificável ou apodrecesses de um dia para o outro...

Que "os corpos apodrecem", disse-te eu. Podes então apodrecer, sejamos francos (embora não tenha eu sequer uma sombra de ideia de quanto tempo levaria o teu corpo a desfazer-se). Mas não apodrecem porém as mãos que vejo a fintar-me o cabelo a meio de uma gargalhada, não apodrece o ar trocista desse rosto, não apodrece qualquer parte de ti que eu seja capaz de guardar.
Por isso não posso validar-te nem impor-te qualquer limite quantificável - pelo peso que teria impor barreiras ao intelecto involuntário que é a memória do coração.

Indagas-te de certo de que falo eu, que memória é essa a "do coração" - como se ele fosse um só ser autónomo e pensante. Não, não o julgues autónomo, porque dele depende todo o resto - é a sucessão de sístoles e diástoles que nos mantém vivos meu caro, e é o calor de tamanho movimento que nos mantém acesa a vontade de viver.

A memória do coração é provavelmente uma invenção de qualquer grupinho de sinapses minhas, que, aborrecidas com a falta de minerais, terão então começado a coleccioar pormenores teus - eu, que tenho comichão a colecções por aversão ao materialismo, dou por mim a coleccionar pormenores. O mais recente será provavelmente a espontaneidade com que, a meio de uma conversa de café sobre um não-sei-quê sem interesse, dizes que no dia 15 do próximo Fevereiro tens jogo ao final da tarde (é o teu geito de agradecimento trocista, como que a dizer-me que quase falhei, mas que ainda assim dás um geitinho). Sorrio-te - percebo-te.


Eu queria ver Oasis a qualquer custo, e o Natal pareceu-me o pretexto perfeito para te embalar o raio do bilhete e arrastar-te comigo - é do tal dia 15 que falo quando menciono prasos, como se quisesse encostar-te à parede e fazer acontecer uma espécie de tudo ou nada, a expirar nesse dia. Como se eu pudesse fazer-te apodrecer depois, caso em vez do tudo fosse o nada.

21 de dezembro de 2008

Sucessão de Parágrafos em Branco

Precisava que me cantasses qualquer coisa nova. Simplesmente como eles fazem soar. Um "sing me something new" oasiano, tranquilo, leve, subtil.
Não sei quantos mais dias uteis consigo não te viver, insinuando depois qualquer coisa fim-de-semana sim, fim-de-semana não; como se te conhecesse com uma distreza peculiar. Engano de linhas mal escritas - não te conheço, não te nada.

7 de dezembro de 2008


Ela não tinha certezas se era o teu pai ontem. "Tem um nariz igualzinho. É ele?" - perguntou-me. "É." - respondi-lhe. Há quantos anos te conheço catano? Diz-me lá vá, o que conhecem de ti estas namoradecas que vais desabotuando dos dias que eu não conheça. Reponder-me-ás que te conhecem despido bem melhor que eu, e dar-te-ei razão. Mas os corpos gastam-se. Rompem-se. Os corpos apodrecem, vê lá tu. O que conhecemos dos outros não. Muito menos os senimentos - mudam sim, tornam-se noutros mais pesados e mais afiados, prontos a cravarem-se-nos em qualquer ponta por onde nos peguem - mas aprodecer, ah, isso nunca.
Troça de ti a seguir, insinua-me que não vieste festejar comigo as 17 Primaveras mas estás preocupado em dar-lhe boleia de regresso a casa. Contorço-me - fui eu quem incentivou que ela te pedisse que fizesses isso uma vez, por achar que tinham tudo ainda para dar um ao outro. Tempos depois ela arranja um qualquer de segunda sem que eu soubesse ou tu desses por isso. E cai-me tudo.
Pões-me no banco de trás numa noite de Outubro em que ela, mesmo tendo o que quer que seja com ele, se rende ao teu toque à distância. Deixas-me em casa e vais levá-la (sublinhe-se que morando nós quase na mesma rua, essa noite foi contra a tua politica do baixo consumo de combustível).
E ela quer-me fazer parecer que isso acontece também nesta noite, em que tu não estás e todos celebram a minha vinda ao mundo.
Talvez seja do conhecimento de corpos - dela conheces o corpo, de mim qualquer coisa para lá do metafísico. Ainda que seja o corpo a apodrecer, és tu quem escolhe deixar-te comer também pelas bactérias que a decompõem. (Não me tomes mal, só darias contas do teu amor inacabado por ela ao fazê-lo. Esse amor grande demais para caber já na minha cabeça.)




02 de Dezembro de 2008

Chama-me nomes, grita, troça de mim se quiseres, mas deixaste. Deixaste o teu cheiro hoje. Um bocadinho por todo o quarto cheira a ti, ou talvez seja só a minha memóra do teu cheiro a impor-se por tudo quanto é lado.
Lembro-me que enquanto decifrávamos os flashbacks do filme sacudiste o edredão. O ar que daí rompeu trouxe-me um aroma a ti que foi directamente para uma sinapse qualquer e fez curto-circuito - "pára de respirar", ordenei-me.
O mesmo cheiro que procuro agora, já sem o encontrar - é a parte de ti que já vivi e ainda assim vou conseguindo inventar. Ouso.Assumo. Mas logo te finto.

Eram umas duas da tarde. Cheguei a casa com a tua proposta disfarçada de vermos o tal filme hoje.
Sorrio. Uma e outra vez. Mantenho o tom seco e concordo. Improvisei qualquer coisa para forrar o estomâgo à velicidade do som ( sabes que a da luz era de mais para mim), enfiei-me no duche quase de raspão e cessei a 3ª Guerra Mundial que se travava na barafunda do meu quarto.
Chegas e divagamos. Lembro-me de teres dito qualquer coisa acerca do meu cheiro - ter-te-á ele vincado a memória ou não passará da alusão a uma loção de recém-nascisdos?
Esboças qualquer coisa sobre a transição de ano de que a Pat enfeitou o meu espelho e ameaças não ir. Torço o nariz às escondidas - mas que me importa que te não tenha por uma madrugada de festejos se passares o resto do ano por perto?
O filme faz parte de uma "septologia" sangrenta, pelo que a história não se dá por finda.
Também nós não ficamos por aqui.
Guarda segredo,
um beijo.