10 de janeiro de 2009


Focas a estrada - os tracejados brancos, as tabuletas às cores, os semáforos que às vezes vês de pernas p'ra o ar. De súbito focas-me a mim, à velocidade da luz, ou não fosses tu a conduzir e eu a irritar-te os sentidos ao lado.
Traças o caminho: eu dito destinos tu meios e envregamos neles como se fosse já rotineiro.
Não consigo lembrar-me com precisão da força que a fimbria dos teus dedos empregavam no volante, muito menos do número de vezes que trocaste a mudança ou olhas-te pelo retrovisor.
Lembro-me que foi esta a segunda viagem espontânea pela Lisboa do nosso tempo que quero guardar. Sim, já por lá nos rimos muitas mais vezes, mas nunca sem mais vozes de fundo que merecessem destaque.
Traçada a rota e travado o trânsito de sexta-feira à noite na capital, poêm-nos os típicos pastéis no mesmo saco, como se nos atirássem para lá aos dois e fossemos depois a achocalhar pelo aminho fora.
Há uma rotunda no vestibulo da nossa localidade, contorna-la e voltas ao mesmo sitio por onde começaste, como se exitasses agora em relação ao caminho que escolhes. És tu quem hoje segura o volante, e eu sorrio quando estacionas onde possamos ser só nós, autentica e independentemente do número de pessoas concentradas naquele parque.
Depois fomos só som de vozes desafinadas com sabor a uma nata tradicional. Fomos só os amigos do costume, a comer e a conversar madrugada dentro, quer nos tocássemos quer não.
Prometeste não voltar às páginas da infância onde o "toca e foge" te enchia o leque de brincadeiras. Eu sorri-te e fui só o que a noite me deixou ser.

1 de janeiro de 2009

O teu lado da moeda

É quando sais e o teu cheiro se crava no ar tanto como as tuas palavras na parede que te escrevo. Pegas em mim como num bloco de plasticina e moldas-me – não o feitio, creio, mas a memória. Moldas-me para que cada peça daquilo que sou esteja ligada a ti, para que cada metro quadrado remeta à tua presença.
Não quero que me tomes que nem amor de bolso, como aquela personagem do filme de hoje que foi à procura de um Deus qualquer que lhe coubesse na algibeira agora que alguém lhe morria. Não quero muito menos que julgues que te tenho como amor de bolso, para usar e guardar conforme a necessidade.
Toma-me como um não-sei-quê em quarto crescente, depois da Lua Nova das nossas infâncias paralelas, agora que as vivências se tornam perpendiculares. Toma-me em cru, tela colorida na tua galeria, quadro que podes ainda, se quiseres, pontear.Usurpo-te o cheiro no cachecol de outrora, o toque na epiderme, a voz na memória. Fomos tudo e nada ao mesmo tempo, no mesmo local de sempre, e eu vinco o “tudo” no teu lado da moeda.