1 de março de 2009

Imperceptibilidade

Juntei umas quantas peças de roupa suja do chão e fui afundá-las no cesto de farrapos amontoados por lavar. Ainda fiz mais qualquer coisa antes de voltar ao quarto – estava quase arrumado.
Entrei de rompante, não estavas à espera. Teces-me um sorriso encenado enquanto me afastas do computador.
O que estás p’rai a esconder? Anda, diz-me!
Ainda me tentas fintar, mas acabas por reconhecer que preparavas um não sei que só podia ver quando saísses.
Aliaste palavras, som e imagem num rodopiar subtil de pivot, para me dizeres o quão sortudo eras por being in love with your best friend.


Percebo agora, melhor que nunca, que não precisamos de nos expressar a terceiros, de declarações manifestas ou de dar qualquer justificação a ninguém – não iriam perceber.
Ninguém ia conseguir lembrar-se da primeira vez em que dei conta do teu tom irónico, tínhamos nós uns 14 anos e estávamos acampados num pinhal perto da praia de Santa-Cruz. Eu estava a roer uma maçã verde, daquelas que adoro, e tu gritaste-me que tivesse cuidado com o autocolante com que incompreensivelmente gostam de enfeitar a fruta. Cuspi de imediato o pedaço que mastigava e tu desfazes-te numa gargalhada quando apontas para o dito papel, ainda na maçã. Tentei vestir um olhar sério por entre a vontade de me rir, mas nem mesmo hoje, quatro anos depois, consigo importunar-me contigo.
Ninguém conseguiria tão pouco perceber de que forma o respeito volveu desejo, ou como crescemos um para o outro na medida certa, ao longo de todos estes anos.


Quis falar-te a cada segundo, quis dizer-te tudo e fui um nada de palavras, a jorrar na foz da tua audição. Perdia-me a magicar no que pensavas tu, enquanto me fintavas entre um e outro sorriso calado. Toco-te, tocas-me, tudo toca soa e ressoa.
Adormeces e eu fico a ouvir-te respirar, embalada na sucessão de sístoles e diástoles do teu corpo no meu. O tempo pára. Não acordes. Fiquemos só assim, ancorados um no outro.

Dorme meu bem, estou mesmo aqui.

1 comentário:

ilhéu disse...

Ás vezes regresso e, apesar de muito intimista, continuo a reencontrar aqui o meu pequeno mundo que ficou para trás, mas segue-me para onde quer que vá. Bjos