Voo de um lado para o outro, mil bagagens na mala, nas mãos, nos braços, na alma.
Abres subtilmente a portada da única hora livre da minha Segunda-Feira e estamos no mesmo lugar de sempre, não à mesmoa hora de sempre porque sempre, por si só, já é muito tempo.
Toco-te, tocas-me, "tudo toca, soa e ressoa". Fintamo-nos mutuamente até que a repulsão pesa demais. Hei de colecionar também este pormenor teu, agora que isso se torna um hábito. Mais um bocadinho teu que não tinha, menos fintas por arquitectar, melhor a memória do teu cheiro, melhor o olhar sobre o teu riso.
É sem luz que melhor te vejo, de olhos cegos pelas pálpebras cerradas.
Foi um só beijo leve, calmo, daqueles que guardas só para ti.
Lá se foram as fintas, as ironias, os sentidos subentendidos e as palavras contidas. Vincaste-me talvez o que ainda não tinhas vincado, como se todos os anos antes fossem só o caminho para aquela tarde.
Disfarçamos e voltamos a encenar a amizade de sempre.
É já Terça-Feira, e cruzo-me contigo no cimo da rua - é esta proximidade que nos empurra um contra o outro meu querido, é desta proximidade que me encho quando te abraço e te roubo mais um beijo - vais não sei onde, fazer não sei o que e "já lá apareces". Não sorrio, não desconfio, não implico, não nada. Esboço-te um okay e sigo, já sozinha, no meu quarteirão. Menos impávida, agora que as conexões neurológicas são reestabelecidas.
Surges num ápice e, dali, a Lua em Quarto Crescente passa a Cheia. São anos de eloquência que me passam no retrovisor que é a memória e cada uma dessas memórias me remete de novo para aqui. Travamos guerras e vamos dando tréguas à medida que os ponteiros dançam - somos só nós agora, e eu já nem quero saber como vim aqui parar.
É quando o tempo se esgota que me encavaco, não rotulamos nem legendamos gestos, e da despedida guardo o beijo que repenicaste na minha testa - sinal do mais primordial sentimento entre nós meu querido: o tão proclamado respeito.
A Terra dá mais uma volta e nós recuamos por oposição, não as palavras, as emoções ou a atitude; só o beijo, talvez para digerir convenientemente a reviravolta.
É hoje o quinto dia da semana e ao geito da Lua Cheia a querer brilhar, traço-te a proposta de almoço. São as pequenas migalhas de cada dia que nos alimentam a aura, e presumo que de hoje tenha ficado a marca de prependicularidade das nossas vivências.Chegámos a enlaçar as mãos, por momentos, como quem navega à cautela novos rumos e os intensifica à própria escala.
Não te tomo como amor de bolso, embora te amplie à minha própria escala. Não te tomo sequer - seria inconcebível fazer-te desaparecer.
Não guardes mais segredo,
Um Beijo.

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